Não há ação do tempo que impeça o romantismo de Oswaldo Polizio. Aos 102 anos, mesmo com dificuldades de locomoção, ele colhe flores no jardim para dar à mulher, Jandyra, que nesta quarta-feira (4/7) completou 100 anos. Juntos há quase sete décadas, eles contam como chegaram tão longe: com gentilezas diárias, bom humor e respeito.

A beleza do que encontra pelo caminho não seria a mesma para Oswaldo sem dividi-la com a companheira. Enquanto ela assiste televisão, ele entra pela porta com presentes trazidos do jardim. O ato de carinho, após 69 anos de casamento, ainda a emociona. Em seguida, eles assistem TV de mãos dadas.

O gesto é a maneira que Oswaldo encontrou para agradecer à companheira pelo convívio gentil. “Nunca vi uma palavra atravessada, uma discussão grosseira, entre eles. O segredo dessa relação tão bonita é a leveza, o bom humor, os dois riem juntos”, relata o filho único do casal, Oswaldo Júnior.

Deu match!
Jandyra era professora, mulher de pulso firme, com personalidade reservada e amante dos livros. Oswaldo trabalhava como topógrafo, figura alegre, expansiva, de riso fácil, que gostava de dançar. Ele conhecia o pai dela e passou a frequentar a casa da família, em Mirassol, interior de São Paulo. Costumava buzinar na frente da escola onde Jandyra lecionava para chamar sua atenção. Até que ela deu-lhe uma chance e os dois nunca mais se separaram.

O casal fez a vida em Jales (SP). Eles queriam uma família numerosa, mas tiveram um filho apenas. Adepta do espiritismo — a religião valoriza a caridade — Jandyra fundou um lar para órfãos. Ajudou a criar mais de 100 meninos e meninas da região.

Muitos deles tiveram em Jandyra e Oswaldo o único exemplo de amor e família. Os centenários ainda recebem visitas de pessoas que passaram pela casa. Atualmente o Lar Transitório Francisco de Assis mantém projetos sociais com auxílio a gestantes e aulas de esporte para crianças.

A bondade que espalharam retornou à família em forma de bênção, acredita o filho, Oswaldo. “Eles sempre procuraram fazer o bem ao outro, isso gera uma qualidade de vida muito grande”, diz. Jandyra e Oswaldo tornaram-se exemplo para as gerações seguintes de familiares. “Admiramos muito o carinho, compreensão, atenção e afeto entre eles. É um amor incondicional, muito puro”, diz a nora, Angélica Polizio.

Os dois já não dançam mais juntos. Jandyra fraturou a bacia e usa cadeira de rodas. Oswaldo também caiu e machucou a perna. A pele não é a mesma da juventude, a memória começa a falhar, enquanto a audição vai embora. Nada disso distancia os dois. Enquanto houver um novo dia, Jandyra e Oswaldo estarão lado a lado no sofá, com direito a flores e dedos entrelaçados, para celebrar a história que escrevem a quatro mãos.

Leilane Menezes/Metrópoles

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