Foto: Martial Trezzini/Associated Press/Estadão Conteúdo 

Sem fazer alarde, a ONU começará a prestar ajuda humanitária dentro da Venezuela para atender o setor de saúde e de alimentação, numa iniciativa que visa estabilizar o fluxo de refugiados e imigrantes que deixam o país.

Por anos, o governo de Nicolás Maduro se recusou a aceitar qualquer ajuda internacional, alegando que isso se trataria de uma justificativa para eventualmente promover uma intervenção militar na Venezuela. A ONU confirmou que, até o mês passado, o governo venezuelano se recusava a falar de uma “emergência humanitária” e, portanto, não permitia a atuação no país das agências internacionais.

O Estado apurou, porém, que um pacote inicial de US$ 9,2 milhões será liberado para a atuação de agências internacionais em Caracas e outras regiões, em uma mudança radical na postura do governo Maduro. O dinheiro, porém, ficará sob o controle das agências externas.

Procurado, o governo venezuelano não deu uma resposta sobre os motivos pelos quais a ajuda passou a ser aceita.

A crise na Venezuela resultou no êxodo de 3 milhões de pessoas, no que é considerado o maior fluxo na história recente da América Latina. Apenas em 2018, mais de 205 mil venezuelanos solicitaram refúgio, além de outras centenas de milhares que cruzam fronteiras na condição de migrantes.

A avaliação na ONU é de que o fluxo ainda aumentará nos próximos meses e apenas uma melhora real das condições de saúde e alimentação fará as pessoas permanecerem no país.

Na próxima semana, a crise venezuelana entrará pela primeira vez na lista dos programas humanitários divulgados pelas Nações Unidas. A entidade lançará um apelo global para crises em Iêmen, Síria, Líbia e outros países em crise. A reportagem confirmou que a Venezuela passará a fazer parte do apelo internacional.

Recursos
Aprovados nesta semana, US$ 2,6 milhões serão destinados à Unicef para que possa ajudar na “recuperação nutricional de crianças com menos de cinco anos de idade, mulheres grávidas ou que estejam amamentando”. Oito Estados da Venezuela serão atendidos.

Um outro cheque de US$ 1,7 milhão será destinado ao atendimento de mulheres e meninas, principalmente nos Estados de fronteira com a Colômbia e Brasil.

Mas a maior parcela do dinheiro irá para a Organização Mundial da Saúde (OMS). A agência terá US$ 3,6 milhões para gastar no fortalecimento de hospitais, ajudar a pagar salários e até mesmo na compra de remédios.

Na avaliação de um alto funcionário das Nações Unidas, o colapso econômico levou a uma “devastação” dos serviços públicos. “Nos hospitais, um número considerável de pessoas já estava trabalhando virtualmente de graça”, contou, na condição de anonimato.

Segundo a fonte ouvida pela reportagem, até agora, as agências internacionais estavam lidando apenas “com os sintomas da crise”, até então, apenas fora dos limites do país – 40 entidades tem atendido à população que deixou o país.

Na ONU, fontes acreditam que este primeiro passo da ajuda humanitária marque o início de um processo que permitirá uma presença maior da entidade no país. Jorge Arreaza, chanceler venezuelano, indicou em meados do ano, em Genebra, que o país não vivia uma “emergência humanitária”, que “todos tinham acesso a saúde” e que a crise era “manobrada” pelos americanos, em busca de fazer o governo Maduro renunciar.

Mas os dados apontavam que crise econômica e política que assolou a Venezuela nos últimos anos levou a um colapso do sistema de saúde do país. A Organização Pan-americana de Saúde (Opas), por exemplo, indicou a fuga de um a cada três médicos do país e a explosão de casos de Aids, malária, tuberculose, sarampo, difteria e outras doenças.

Em 2014, por exemplo, existiam registrados 66,1 mil médicos na Venezuela. Em 2018, 22 mil já deixaram o país.

Os dados de mortalidade infantil também mostraram que o país regrediu em 40 anos. Depois de anos de melhorias, os índices de 2017 eram equivalentes ao que se registrava na Venezuela em 1977. No Estado de Miranda, um estudo ainda mostrou que os idosos chegaram a perder 16 quilos por ano em média por escassez de alimentos.

Agência Estado

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