A política brasileira, desde suas origens coloniais, tem na família uma de suas principais estruturas de poder. O que vemos hoje no Maranhão, os maridos políticos emplacando esposas em chapas majoritárias e em espaços público de poder, não é novidade, mas a atualização de um fenômeno histórico: a política como extensão do clã.
A análise sociológica do poder político no Brasil sempre apontou a família como instituição central. Como observou José Murilo de Carvalho, o status político passou a substituir o status econômico como determinante da posição social, mantendo-se o recrutamento político em base familial. Em outras palavras: a família é o canal pelo qual o poder se transmite, se perpetua e se legitima.
No Maranhão, isso é ainda mais evidente. O estado tem uma tradição de clãs políticos que se alternam no poder, e o que se vê agora é a continuidade desse modelo com novas roupagens. O que antes era feito com pais e filhos agora também se faz com maridos e esposas.
A crítica central aqui é: onde está o protagonismo feminino genuíno quando a mulher entra na política como “suplente” ou “candidata” do marido? A bancada feminina cresce numericamente, mas a sombra do marido continua sendo maior que a mulher.
A “vez das mulheres” anunciada nos bastidores, com Márcio Jerry e Rildo Amaral indicando suas esposas é, na verdade, a perpetuação do poder como bem de família. Não há ruptura com o modelo oligárquico. Há apenas uma adaptação: a mulher agora ocupa o cargo, mas o marido continua sendo o verdadeiro detentor do poder político.
E aqui vem o ponto central: Márcio Jerry e outros que agora se beneficiam desse modelo são os mesmos que falam contra oligarquia e nepotismo. Mas, na hora de indicar a esposa, a coerência fica em segundo plano. A boca que critica o “familismo” é a mesma que sustenta a própria família no poder.
A diferença? Antes, a crítica era discurso. Agora, a prática revela o que sempre esteve por trás das palavras.

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