Faz mais ou menos um mês, que recebi logo cedo, uma mensagem de um primo que mora em São Paulo, informando o falecimento de nossa tia Vintura. Tomado pela tristeza, tomei logo a iniciativa de transmitir a infeliz notícia aos familiares de perto.
No correr do dia, fui tomado pelas lembranças da minha infância ao lado de tia Vintura, que depois de viver muito (quase cem anos), finalmente cumpriu o destino reservado a todos os viventes. Seu nome de batismo era Maria das Graças Ferreira de Souza, sempre viveu uma vida frugal, porém sempre disposta ao trabalho e não perdia uma festa na região, mesmo nos lugares mais longínquos. Nunca casou, sequer namorou na vida, mas viveu a vida do jeito que quis, com liberdade e disposição.
Três características marcaram a vida de tia Vintura. A primeira, foi o desapego ao luxo, a segunda, gostava de acumular coisas (até mesmo quantias significantes de dinheiro em casa), além dos empréstimos que fazia a alguns comerciantes da região – tudo no “fio do bigode”, como se diz, sem papel assinado e nenhuma garantia e a terceira era a sua imaginação fértil, que a capacitava a criar estórias mirabolantes. Vou recordar algumas dessas estórias (que na mente dela, eram histórias, nada de ficção).
Contava-nos tia Vintura, que certa vez foi ao inferno, não soube explicar como chegou até lá, só sabe que foi, narrou em pormenores tudo o que viu, algumas pessoas conhecidas e o sofrimento das almas. Tia Vintura quis botar ordem na casa, pois não concordava em ver tanto sofrimento e começou a questionar. Nisso, o diabo-chefe ordenou aos seus serviçais que a contivessem, em resposta, ela começou a dar pontapés nos capetas, a briga foi grande e o inferno ficou todo bagunçado. O capiroto, ao ver a brabeza daquela mulher, logo ordenou a alguns de seus súditos – Tirem essa mulher daqui eu não quero vê-la nunca mais – segundo tia Vintura, muitos capetas ficaram bastante feridos.
Tia Vintura era festeira, e certa vez, altas horas da noite, vinha de uma festa lá para as bandas do Pega-Bem, e de repente uma onça atravessou o seu caminho e quis ataca-la. Mais que depressa, ela subiu no felino e foi cavalgando até perto da Formosa, quando desceu e o enxotou para dentro da mata.
Ela era muito devota de São Francisco, e posso afirmar sem medo de errar, que o único lugar no mundo que ela conheceu fora de Piripiri –nossa terra natal – foi o Canindé, para onde se deslocava quase todos os anos a bordo de um pau de arara (caminhão adaptado para transporte de passageiros) para cumprir a sua devoção. Como solteirona, dizia que todos os seus bens “eram do santo” – mas isso ela dizia só para não dar nada a ninguém- criava gado, porcos, cabras e ovelhas, e quando vendia algum desses animais, viajava ao Canindé para “entregar o dinheiro ao santo”.
Certa vez, ela vendeu a prazo uma vaca holandesa para um de seus parentes, e como após expirado o prazo, o comprador ainda não havia cumprido o trato, mandou-me escrever um bilhete dizendo que São Francisco havia aparecido e pedido urgência no pagamento.
Numa das viagens para o Canindé, o caminhão pau de arara deu o prego no meio do nada. O sol estava muito quente – e o pobre do condutor – teve que se virar para identificar o problema. Usou todo o seu raso conhecimento de mecânica automotiva e de nada adiantou. Sob o sol escaldante, com fome, com sede e desesperado, o motorista começou a praguejar, se maldizendo da sorte. Tia Vintura, com toda a paciência, disse para ele ter fé, rezar e pedir a São Francisco para resolver o problema. O pobre motorista começou a rezar, e resolveu ligar o caminhão, que pegou na hora! Assim seguiram viagem, e tia Vintura logo bradou: “Vai ter fé assim na baixa da égua”.
Agora restavam apenas lembranças de tia Vintura. O que eu poderia fazer, se não me conformar? Pois a morte é a única certeza que temos na vida.
No dia seguinte, por volta das quatorze horas, recebi uma nova mensagem de meu primo. Era informando que tia Vintura continua vivinha da silva, quem tinha falecido era outra pessoa, e alguém havia passado a informação equivocada para ele. Ela continua lúcida, contando suas estórias e vivendo a mesma vida de sempre.
(*) Contabilista, geógrafo, pedagogo e bacharel em Teologia.